09 fevereiro 2015

I'm sure you've heard it all before

— Em ,


I don't believe that anybody
Feels the way I do
about you now...
And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I'd
Like to say to you
But I don't know how.
Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall...


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É isso.
31 janeiro 2015

O Incriado

— Em
"Distantes estão os caminhos que vão para o Tempo — outro luar eu vi passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas lamentações escuto como vindas da eterna espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias em corpos nus unidos se amando
E no meu ser todas as agitações se anulam como as vozes dos campos moribundos.

Oh, de que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar sobre o pântano e cantar prisioneiro?
Nada há a fazer pois que estão brotando crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida deixou nas matas silenciosas.

Nem plácidas visões restam aos olhos — só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto que é preciso esquecer para ter vida
Todas as meias-noites soam e o leito está deserto do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia, desolada e só em busca de Deus.

Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo o eterno ruído do mar batendo
No entanto como está longe o mar e como é dura a terra sob mim...
Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema fraqueza
E que, voando, caem, pequenos e abençoados, nos parques onde a primavera é eterna.

Na memória cruel vinte anos seguem a vinte anos na única paisagem humana
Longe do homem os desertos continuam impassíveis diante da morte
Os trigais caminham para o lavrador e o suor para a terra
E dos velhos frutos caídos surgem árvores estranhamente calmas.

Ai, muito andei e em vão... rios enganosos conduziram meu corpo a todas as idades
Na terra primeira ninguém conhecia o Senhor das bem-aventuranças...
Quando meu corpo precisou repousar eu repousei, quando minha boca ficou sedenta eu bebi
Quando meu ser pediu a carne eu dei-lhe a carne mas eu me senti mendigo.

Longe está o espaço onde existem os grandes voos e onde a música vibra solta
A cidade deserta é o espaço onde o poeta sonha os grandes voos solitários
Mas quando o desespero vem e o poeta se sente morto para a noite
As entranhas das mulheres afogam o poeta e o entregam dormindo à madrugada.

Terrível é a dor que lança o poeta prisioneiro à suprema miséria
Terrível é o sono atormentado do homem que suou sacrilegamente a carne
Mas boa é a companheira errante que traz o esquecimento de um minuto
Boa é a esquecida que dá o lábio morto ao beijo desesperado.

Onde os cantos longínquos do oceano?... Sobre a espessura verde eu me debruço e busco o infinito
Ao léu das ondas há cabeleiras abertas como flores — são jovens que o eterno amor surpreendeu
Nos bosques procuro a seiva úmida mas os troncos estão morrendo
No chão vejo magros corpos enlaçados de onde a poesia fugiu como o perfume da flor morta.

Muito forte sou para odiar nada senão a vida
Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida
A gratuidade está no meu coração e a nostalgia dos dias me aniquila
Porque eu nada serei como ódio e como amor se eu nada conto e nada valho.

Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou.

De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as coisas
Se ele tem algemas que o impedem de levantar os braços para o alto
De nada valem ao homem os bons sentimentos se ele descansa nos sentimentos maus
No teu puríssimo regaço eu nunca estarei, Senhora...

Choram as árvores na espantosa noite, curvadas sobre mim, me olhando...
Eu caminhando... Sobre o meu corpo as árvores passando...
Quem morreu se estou vivo, por que choram as árvores?
Dentro de mim tudo está imóvel, mas eu estou vivo, eu sei que estou vivo porque sofro.

Se alguém não devia sofrer eu não devia, mas sofro e é tudo o mesmo
Eu tenho o desvelo e a bênção, mas sofro como um desesperado e nada posso
Sofro a pureza impossível, sofro o amor pequenino dos olhos e das mãos Sofro porque a náusea dos seios gastos está amargurando a minha boca.

Não quero a esposa que eu violaria nem o filho que ergueria a mão sobre o meu rosto
Nada quero porque eu deixo traços de lágrimas por onde passo
Quisera apenas que todos me desprezassem pela minha fraqueza
Mas, pelo amor de Deus, não me deixeis nunca sozinho!

Às vezes por um segundo a alma acorda para um grande êxtase sereno
Num sopro de suspensão a beleza passa e beija a fronte do homem parado
E então o poeta surge e do seu peito se ouve uma voz maravilhosa,
Que palpita no ar fremente e envolve todos os gritos num só grito.

Mas depois, quando o poeta foge e o homem volta como de um sonho
E sente sobre a sua boca um riso que ele desconhece
A cólera penetra em seu coração e ele renega a poesia
Que veio trazer de volta o princípio de todo o caminho percorrido.

Todos os momentos estão passando e todos os momentos estão sendo vividos
A essência das rosas invade o peito do homem e ele se apazigua no perfume
Mas se um pinheiro uiva no vento o coração do homem cerra-se de inquietude
No entanto ele dormirá ao lado dos pinheiros uivando e das rosas recendendo.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memória
Eu sou como velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam — nada permanece para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passado, passando, passando..."

VINICIUS DE MORAES

Alone

— Em
...summertime sadness...

(Na radio, numa madrugada sozinha)
24 janeiro 2015

Minha soundtrack de Girls

— Em
Porque acabei de terminar a terceira temporada de Girls e começar a 4ª...
Porque já havia devorado "Não sou uma dessas" da Lena Dunham no começo do mês e pude ver em cada episódio dessa temporada de Girls a vida de Lena contada através de Hannah. E eu amo essas duas <3
Porque já deu saudade.

22 janeiro 2015

Em um dia qualquer

— Em


Já me convenci que a imagem que tenho de você não te traduz realmente. Eu tenho dessas, de imaginar as pessoas melhores ou piores do que realmente são dependendo da estima que tenho por cada uma. Minha estima também não tem critérios, é aquela história do santo que bate ou não. E meu santo bateu com o seu desde o primeiro dia de aula no segundo ano do ensino médio mesmo sendo você do signo de peixes, coisa que descobri depois. Faz tempo, mas eu lembro. Foi uma simpatia gratuita, uma vontade de ser sua amiga, de te conhecer além do obvio de ver que você torcia pelo corinthians, sei lá, só queria saber se você estava tão perdido quanto eu na escola nova. E você estava mesmo perdido, entrou na sala errada - a minha - e assistiu vários dias de aula até descobrir que seu nome constava na lista de chamada da sala ao lado. Senti uma mini-decepção quando descobri que não seriamos mais colegas, entretanto o segundo ano do colégio passou e voando. Fiz amigos, arrumei paquerinhas e até peguei aquele seu colega estranho. Mas sempre que te via pelos corredores com pessoas cujo meu santo não bateu, me perguntava o que você fazia ali naquele meio. O ano seguinte chegou e recebi um convite de amizade inesperado no orkut e não lembro da minha reação, mas deve ter sido algo como "Por que?". Eu aceitei e logo viramos BFF's do msn. Um dia eu queria me aproximar, no ano seguinte você escancarou. Acho que não foi nada premeditado, tenho certeza que a simpatia gratuita desde o ano anterior era unilateral, mas aconteceu de você me adicionar e d'eu esquecer de perguntar o por quê. Esse foi um ano meio louco e confuso, metemos os pés pelas mãos algumas vezes, confundimos as coisas, mas por muitas vezes você foi meu lugar de fuga. Era só subir a janelinha do msn que todas as minhas mil tretas adolescentes sumiam, pois enquanto minha casa pegava fogo, eu me sentia segura na bolha da nossa amizade. E os anos que sucederam esse foram relativamente difíceis para nossa relação, com a vida adulta batendo a porta, começamos a conversar menos, quando nos víamos era por força do destino (ou do ônibus atrasado), e foi tudo ficando estranho, mas eu não queria perder o sentimento de familiaridade que tinha por você. E você não foi ao meu casamento, fez vários outros amigos bizarros, entrou na faculdade, eu segui minha vida de casada (e feliz!), larguei a primeira faculdade, fui embora desse canto de mundo em que nascemos, enlouqueci mais um pouquinho com a vida adulta nessa cidade louca em que o sol se põe as 20h e agora estou aqui com a cara na tela do computador, como nos anos em que os amigos liam meu blog, enquanto você está ai fazendo sabe-se lá Deus o que. Eu não sei o que pretendo escrevendo isso, talvez só explicar que quando voltei pra minha cidade pra passar férias nesse ultimo mês, entreguei ao destino o curso da nossa amizade. Foram 35 dias perambulando, curtindo cada cantinho que amo desse lugar, sem me preocupar com o que a vida me traria, pois se o destino quisesse, ele trataria de criar coincidências pra que a gente se encontrasse de novo (como no dia do meu aniversario em que tava passando Alfie - tão você - no Studio Universal). Eu não procurei ninguém além dos meus pais. E eu não queria marcar pra sair, pois ficaria parecendo que qualquer encontro marcado era apenas por obrigação pelos velhos tempos. Esse negócio de "vamos marcar um dia" é o epitáfio de qualquer amizade que se esfriou. Hoje percebo que o destino cruzou nossos caminhos naqueles anos porque queria nos ensinar algo, lição aprendida, aparentemente é hora de cada um voltar para os seus lugares. Moramos tantos anos no mesmo bairro e apenas quando a vida julgou necessário nos encontramos, passado o momento de aprender, morando no mesmo bairro nunca mais nos vimos. Mas a imagem bonita que criei de você nunca foi apagada. E quando vejo suas fotos na minha linha do tempo do instagram ou no facebook, sinto que aquelas imagens não traduzem a pessoa que penso que você é. Você mudou por fora, certamente mudou por dentro, entretanto prefiro minhas próprias impressões além das boas lembranças de bons tempos. E algum dia, se a vida quiser, num momento de bobeira e pura coincidência, nos encontramos de novo pra que eu te apresente meu esposo e meus filhos.